Diario Judío México - Contando mais uma história do nosso património, abordemos agora a temática judaica: os judeus de Elvas, uma população esclarecida, culturalmente desenvolvida e perseguida durante séculos que também deixou vestígios patrimoniais na nossa cidade.

Durante a Idade Média, em todas as vilas e cidades portuguesas onde marcavam presença mais de uma dezena de judeus era criada uma comunidade judaica denominada de comuna ou aljama e eram criados bairros próprios para estes judeus viverem: são as chamadas judiarias. O centro organizacional das judiarias eram as sinagogas, o local de culto, e o rabi-mor funcionava como governador da comuna. Embora as relações entre o poder cristão e o poder judaico nunca fossem fáceis, as perseguições em si foram raras até ao decreto de expulsão de 1496. Assim sendo, estes judeus eram e comportavam-se como todos os outros elvenses com a sua religião própria. Graças ao seu desenvolvimento intelectual e cultural, muitos deles eram endinheirados e possuíam profissões de relevo: cirurgiões, grandes mercadores, físicos, ourives, boticários e outras profissões ligadas ao comércio.

Sendo Elvas uma cidade situada num ponto estratégico a nível económico e comercial, sempre teve imensos comerciantes e artífices em que a maioria deles era judeu, pelo que uma enorme parte da população era judaica. Precisamente pelo facto de haver um grande número de judeus, durante a Idade Média, Elvas era uma vila em que havia duas judiarias: a Judiaria Nova e a Judiaria Velha. Esta presença judaica em Elvas está bem documentada desde o séc. XIII, no entanto, ela será bem anterior uma vez que uma das judiarias elvenses já é denominada de “judiaria velha” no séc. XIV. Ora se em 1368 uma das judiarias já é velha é porque era já muito antiga e deve ter origem no período islâmico, provavelmente do séc. X.

Mas onde são essas judiarias? A Judiaria Velha, a mais antiga, e onde vivia a grande maioria dos judeus elvenses corresponde ao espaço que é hoje a Praça da República que foi até 1511 um conjunto de ruas e travessas das quais algumas sabemos os nomes: a Rua de Alcobaça ou a Rua de Alcalá, mas ocupava esta judiaria também as actuais ruas dos Sapateiros, dos Açougues, de Aires Varela, de João de Olivença, de Martim Mendes, de Isabel Maria Picão, Arco dos Pregos e Portas do Sol. A Rua João de Olivença foi mesmo chamada durante séculos de Rua da Judiaria Velha.

Quanto à Judiaria Nova, localizamo-la a oeste da zona da Alcáçova, ou seja, o que corresponde hoje ao espaço do Cine-Teatro, Escola Primária de Alcáçova, Igreja das Domínicas, Calçadinha do Castelo e Rua das Beatas. É um espaço que foi bastante alterado posteriormente e por isso, à excepção da Rua das Beatas o traçado actual não corresponde ao medieval. Esta judiaria nasceu na primeira metade do séc. XIV quando a comunidade deve ter crescido e já não cabia na judiaria velha.

No entanto, identifica-se ainda um terceiro espaço com população judaica em Elvas e que corresponde à zona da Feira, ou seja, as actuais ruas da Cadeia, da Feira, de Alcamim e Largo da Misericórdia. Com centenas de mercadores e artífices, a comuna não podia estar longe do espaço comercial da feira, ocupando desde talvez o séc. X a zona onde se fazia o mercado (a Rua dos Açougues, também chamada dos Mercadores e que começava à altura logo no Arco do Bispo só terminando no Largo do Salvador), a Sapataria (actual Rua dos Sapateiros) e a Ferraria (actuais Portas do Sol, ao lado da Sé).

Para além destes locais, a comunidade judaica tinha um espaço cemiterial próprio, apartado do local onde viviam e sempre virado a oriente, no local onde estão hoje as Portas de Olivença e talvez parte do Bairro da Fonte Nova.

São imensos os documentos que tanto no Arquivo Histórico Municipal de Elvas como na Torre do Tombo nos falam dos judeus de Elvas tanto em escrituras, petições ou outro tipo de manuscritos, mas a sua presença não ficou só nos documentos escritos. Continuamos para a próxima semana a contar esta história…