Diario Judío México - Continuando a história do nosso património da semana anterior, seguimos com a história dos judeus de Elvas e todo o património cultural que legaram à nossa cidade, voltemos à Idade Média.

Alguns dos judeus elvenses eram tão importantes que viviam na corte: Rabi Sad, que servia o cavaleiro Fernão da Silva; José Amigo e José Abroz, criados de D. Afonso V; Samuel Saltir, criado de D. João II. Os documentos falam também de Abraão Abom, ferreiro, Mestre Abraão, cirurgião, Isaac Pintado, Josepe Faro, Mosse Verdugo, Abraão Alcafal, Mayr Zarco e muitos outros. Para saber mais sobre eles é só consultar a obra de Fernando Branco Correia “Elvas na Idade Média” ou “Judeus e Cristãos Novos no Distrito de Portalegre” de Maria Ferro Tavares, autora especializada nesta área.

Entre 1320 e 1350, um judeu de Elvas chamado Vidal escreve umas cantigas que ficaram célebres e que estão hoje transcritas, embora incompletas, nos cancioneiros da Biblioteca Nacional e da Vaticana. Demonstram claramente uma mescla da cultura hebraica com a cultura moçárabe. Ei-las:

Estas duas cantigas fez huu judeu d’Elvas, que avia nome Vidal, por amor d’ua judia de ssa vila que avia nome Dona. E pero que é ben que o ben que home faz sse non perça, mandamo-lo screver; e non sabemus mais d’ela[s] mais de duas cobras, a primeira de cada hua.

 Moir’ (e faço dereito)

 por ũa dona d’ Elvas

que me trage tolheito

 como a quem dam as ervas;

des que lh’ eu vi o peito

branco, dix’ a sas servas:

– A mià coita nom há par:

ca sei que me quer matar,

quero eu morrer por ela,

ca me nom poss’ ém guardar”.

(…)

Faz-m’ agora por si morrer

a traz-me mui coitado

mià senhor do bom parecer

e do cós bem talhado,

a por que hei mort’ a prender

come cervo lançado

que se vai do mund’ a perder

da companha das cervas.

Mal dia nom ensandeci,

e pacesse das ervas,

e nom viss’ u primeiro vi

a fremosinha d’ Elvas!   

(…)

Mal dia nom ensandeci,

e pacesse das ervas,

e nom viss’ u primeiro vi

 a fremosinha d’ Elvas!  

 

Hoimais a morrer me convém,

ca tam coitado sejo

pola mià senhor do bom sém,

que am’ e que desejo

e que me parece tam bem

cada que a eu vejo,

que semelha rosa que vem

quando sal dantr’ as relvas.

Mal dia nom ensandeci,

e pacesse das ervas,

e nom viss’ u primeiro vi

a fremosinha d’ Elvas!

 

Com a expulsão dos judeus de Espanha em 1492 criaram-se milhares e milhares de refugiados que fugiram para os países mais próximos, entre os quais Portugal e, claro, em especial Elvas. Andrés Bernáldez calcula que durante este ano passaram de Badajoz para Elvas cerca de 10000 judeus, tendo por aqui ficado muitos deles e aumentando a já grande comuna elvense.

A 5 de Dezembro de 1496, D. Manuel I assina o decreto de expulsão dos hereges também de Portugal dando-lhe até 31 de Outubro do ano seguinte para deixarem o país. No caso dos judeus havia a hipótese de ficarem por cá com uma conversão à força ao cristianismo através do baptismo. Muitos abandonaram o país optando por países como a Inglaterra ou a Holanda, outros converteram-se pro forma continuando o culto judaico escondidos nas suas casas e terrivelmente perseguidos e/ou mortos pela Inquisição. Estes convertidos ficaram chamados de cristãos-novos e deixaram de morar apenas nas judiarias, espalhando-se pela cidade. Quase todos os vestígios arquitectónicos foram demolidos ou escondidos. Na Judiaria Nova, por exemplo, foram demolidas grande parte das casas, que depois ficaram para a Ordem de Cristo, para a construção do Convento das Domínicas (demolido no início do séc. XX para posterior construção do Cine-Teatro e Escola Primária de Alcáçova). O cemitério foi profanado e também as sinagogas destruídas ou transformadas.

Ainda assim, muitas famílias por cá ficaram, embora muitos sejam condenados a penas duras e outros à morte na fogueira. Estima-se que no séc. XVII pelo menos um quinto dos elvenses sejam cristãos-novos e os processos inquisitoriais que hoje encontramos nos arquivos referentes a judeus de Elvas são às centenas.

A perseguição durou até tarde, uma vez que só em 1821 a Inquisição seja extinta e embora tenha diminuído bastante no séc. XVIII, a 28 de Janeiro de 1755 ainda a Câmara de Elvas requere ao juiz de fora que não dê posse ao novo procurador do concelho, Estêvão José Mendes Tourinho, “por ser geralmente reputado como confesso d’infecta nação”. Estêvão Tourinho desiste do cargo dois dias depois, mudando-se para Lisboa…

Continuo para a semana com esta grande história.

 

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